Literatura e Língua Portuguesa
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Quem disse que ler não é divertido?

Quem disse que ler não é divertido?
Por que a ideia de se criar um grupo para ler e discutir um livro tomando uma bebida e beliscando uns petiscos é uma ideia tão ameaçadora?

domingo, 30 de janeiro de 2011

O LÉXICO: LISTA, REDE OU COGNIÇÃO SOCIAL?

A língua é “ação” entre sujeitos e não “relação” entre nomes e coisas. Na perspectiva sócio-cognitiva, tais categorias não são uma simples relação convencional, elas são uma relação sócio-histórica, uma “negociação” entre os sujeitos. A referência não tem um único significado, ela é uma construção de sentido por meio da interação. Cada item lexical não está “preso” a um item do mundo. A língua não é um “sistema pronto” para nomear um “mundo pronto”, é necessário questionarmos os processos interacionais realizados durante a referenciação/nomeação, feita “no diálogo e no comum acordo entre os interlocutores”. Saber que um item lexical designa um objeto do mundo, não é apenas identificar aquele objeto em particular, é “fazer uma experiência de reconhecimento com bases num conjunto de condições que foram internalizadas numa dada cultura” e cada uma dessas experiências pode acontecer de inúmeras e diversas maneiras de acordo com vários aspectos interacionistas ligados aos sujeitos participantes e a fatores contextuais. Juntamente com a sintaxe e a fonologia, o léxico é parte fundamental da língua, mas enquanto as outras duas partes são regidas por um número limitado de regras e combinações o léxico ultrapassa todas as tentativas de definição e classificação. A construção do sentido de um enunciado dá-se no momento de sua enunciação e não está intrínseco no material lingüístico utilizado, o significado produzido estará ligado a aspectos específicos dos interlocutores e do contexto sócio-histórico em que tal enunciado foi realizado. A referenciação não se limita apenas a nomear objetos de mundo realmente existentes, ela dá conta de criar diversos objetos de discursos que não necessariamente correspondem a uma “verdade universal”. É a interação entre os sujeitos que cria as referências por eles em seus discursos por meio de uma “negociação pública, ajustes, acordos, desacordos, etc” entre os interlocutores participantes de uma dada situação interacional. Mesmo itens lexicais aparentemente denominadores de objetos do mundo não são únicos, invariáveis e idênticos, toda referência é construída de acordo com os aspectos intersubjetivos e fatores contextuais. Ele “cria” seu próprio mundo de acordo com suas relações sociais. Os itens lexicais e suas categorias não são simplesmente etiquetas para seres e objetos do mundo, elas trazem, sim, uma identificação semântica, mas não se resumem a ela. É a interação dos sujeitos dentro do contexto social que possibilita a referenciação, criando assim objetos de discurso e não apenas nomeando seres, coisas ou acontecimentos do mundo real. Obviamente, todos os conhecimentos prévios de mundo dos interlocutores é também parte fundamental do processo de referenciação, pois se cada objeto de discurso precisasse ser inteira e momentaneamente construído para depois ser descartado, a interação acabaria bastante limitada. Este condicionamento faz parte dos conhecimentos prévios necessários a interação e é ele que garante um mínimo de compreensão entre os interlocutores. A significação está, portanto, ligada às variantes do processo de referenciação realizado durante a interação de sujeitos e não apenas dada prontamente por um item lexical. Conhecer um objeto de mundo denominado por um item lexical, não significa conhecer todos os objetos de mundo possíveis, assim como conhecer um item lexical e saber usa-lo de maneira correta em seu discurso não é simplesmente associa-lo a um objeto do mundo em particular.


Publicado em: http://pt.shvoong.com/humanities/linguistics/1725985-l%C3%A9xico-lista-rede-ou-cogni%C3%A7%C3%A3o/